Em meio à campanha contra a obesidade, especialistas discutem até que ponto o excesso de peso é prejudicial à saúde 

Epidemia ou alarmismo? 

(Texto de Flávia Mantovani e Marcos D'avila)



A obesidade é uma epidemia que mata milhares de pessoas por ano. Pessoas gordas têm muito mais chance de ter hipertensão, diabetes e problemas cardiovasculares. Quem está acima do peso deve emagrecer o mais rápido possível para manter a saúde. Todo mundo já ouviu afirmações como essas, difundidas constantemente por especialistas, meios de comunicação e público leigo.
Alguns pesquisadores americanos, no entanto, estão dizendo que pode não ser bem assim: eles consideram exagerado o alerta em torno da epidemia de obesidade e seus riscos e dizem que muita gente que está acima do peso é saudável e não deveria tentar emagrecer a todo custo. O que se alega é que muita gente com excesso de peso é saudável e não deveria buscar dietas radicais 

A polêmica ganhou força após a publicação, há dois meses, de uma pesquisa do CDC (Centers for Disease Control and Prevention, órgão do departamento de saúde do governo americano) no jornal "The New York Times" que mostra que quem está um pouco acima do peso corre menos risco de morrer cedo do que quem pesa menos do que o recomendável. No mês seguinte, as revistas americanas "Time" e "Scientific American" trouxeram reportagens discutindo a questão.
Uma série de livros sobre o tema foi lançada entre 2004 e 2005, com títulos como "The Obesity Myth" (O Mito da Obesidade), "Obesity: the Making of an American Epidemic" (Obesidade: a Invenção de uma Epidemia Americana) e "The Obesity Epidemic: Science, Morality and Ideology" (A Epidemia de Obesidade: Ciência, Moralidade e Ideologia).
O mais curioso é que grande parte das críticas vem de fora da área médica: a maioria desses pesquisadores estuda o fenômeno sob a ótica da estatística e da opinião pública. Um dos principais questionamentos que eles fazem é quanto ao indicador usado para medir a obesidade -o IMC (Índice de Massa Corporal), calculado pelo peso divido pela altura ao quadrado. Segundo eles, os valores do IMC para o excesso de peso (24,9 kg/m2) e para a obesidade (29,9 kg/m2) são muito baixos.
De fato, os pesquisadores do CDC mostraram, em seu levantamento, que "o excesso de peso não foi associado ao excesso de mortalidade". Já o risco em relação à obesidade foi comprovado, mas descobriu-se que ele mata menos gente do que se pensava. Recalculadas com dados mais atuais, as 365 mil mortes por ano nos EUA atribuídas à obesidade caíram para quase 26 mil. "O impacto da obesidade sobre a mortalidade parece ter decrescido ao longo do tempo, talvez por causa das melhorias na saúde pública e no tratamento médico", diz a conclusão da pesquisa.
Antes que o leitor saia correndo para comprar uma pizza gigante com torta de chocolate e cancelar o plano da academia, é preciso esclarecer que ninguém está dizendo que não se deve levar uma vida saudável. O que se alega é que muitas pessoas com excesso de peso têm uma boa alimentação, exercitam-se regularmente e mantêm seus níveis de colesterol, triglicérides e glicose controlados; por isso são saudáveis e não deveriam buscar dietas radicais e programas de exercícios torturantes.
Além disso, mesmo que haja dúvida sobre a partir de quantos quilos o peso em si passa a ser um indicador certo de riscos para a saúde, todos concordam que há um limite. "Não há dúvida de que várias doenças estão associadas ao excesso de peso. A grande questão é a partir de quando elas aparecem", diz o gastroenterologista Dan Waitzberg, professor da Faculdade de Medicina da USP e diretor do Grupo de Apoio de Nutrição Enteral e Parenteral.

GORDINHO SAUDÁVEL


Em cartaz com a peça "Só as Gordas São Felizes", com texto e direção de Celso Cruz, o ator Guilherme Freitas, 47, tem horror a academias. Com 106 quilos e 1,77 m, diz ser um gordo "resolvidíssimo" -e saudável. Pelo menos é o que mostram todos os exames que faz regularmente. "Me preocupo muito com minha saúde, mas não suporto as academias. Me sinto um idiota levantando pesos, correndo na esteira. É muito fechado, me dá claustrofobia", diz o ator, que prefere fazer caminhadas e dançar. Na peça, Guilherme interpreta uma gorda carinhosa e totalmente resolvida. "A peça questiona essa pressão atual de ser magrinho, de ter o corpo "assim ou assado"."
Quem também não encara uma academia é a apresentadora de TV Silvia Poppovic, 50, que comanda um programa com seu nome na TV Cultura. "Nunca suportei academias. É um ambiente pouco estimulante para os gordos. Todo mundo fica examinando cada centímetro do corpo", diz ela, que prefere caminhar e jogar squash. "Tenho indicadores de saúde muito bons. Não preciso tomar remédio para nada disso [colesterol alto, hipertensão e diabetes]", afirma.
Para a apresentadora, o nível de exigência com o corpo aumentou de uns anos para cá. "Não quero fazer apologia de que ser gordo é bom, mas não deixo de me gostar. Muita gente se esconde com roupas largas. Essas pessoas acabam ficando maiores do que são, se enfeiam, perdem a sensualidade", diz ela, que, por anos, só se olhava no espelho da cabeça para cima. "Agora, me vejo de corpo inteiro."
Apesar de o tema ainda gerar controvérsia, muitos médicos admitem que é possível ser gordo e saudável. De acordo com o endocrinologista Giuseppe Repetto, presidente da Abeso (Associação Brasileira para o Estudo da Obesidade), trata-se de um consenso. "Conheço vários gordos muito mais saudáveis do que magros que são fumantes, estressados, hipertensos. Quem tem peso acima do normal não deve ser carimbado como um doente. O IMC virou um negócio meio cabalístico", diz.
Segundo o médico, o que os pesquisadores americanos fizeram foi "reavaliar as estatísticas e puxar conceitos que tinham sido esquecidos, demonstrando que o excesso de peso moderado não é o fim do mundo, como está sendo divulgado aos quatro ventos".
Repetto lembra, no entanto, que é preciso usar o bom senso. "Para o indivíduo com comorbidades [complicações decorrentes da obesidade, como diabetes e hipertensão], a única solução é perder peso."
Para Waitzberg, é preciso ter cuidado com as estatísticas. "Elas se aplicam a uma população e não são transladáveis de imediato para um indivíduo. É possível encontrar pessoas consideradas magras ou gordas demais segundo o IMC que não têm problemas de saúde."
O endocrinologista Walmir Coutinho, vice-presidente da Federação Latino-Americana de Sociedades de Obesidade, confirma que há pessoas com sobrepeso que não têm problemas de saúde, mas afirma que elas são exceções. "Em alguns casos, quando não se deposita muita gordura no abdômen, a pessoa fica mais ou menos protegida contra hipertensão, diabetes e colesterol alto, que são as principais complicações da obesidade. Mas ela continua mais susceptível a alguns tipos de câncer e à artrose", alerta. Ele lembra que quem tem IMC a partir de 30 kg/m2 já é considerado doente pela OMS (Organização Mundial da Saúde). A obesidade central (concentrada no abdômen) é a que traz mais riscos 


Para Coutinho, é "inquestionável" que há uma epidemia de obesidade e que ela é "alarmante". Segundo os últimos dados do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística), a prevalência da obesidade em adultos no Brasil é de 7% em homens e de 12,4% em mulheres. Se somarmos a esse índice as pessoas com sobrepeso, a prevalência é de quase 40%.
Márcio Mancini, endocrinologista do Grupo de Obesidade do Hospital das Clínicas da USP, diz que não só doenças cardíacas e diabetes têm ligação com o sobrepeso mas também problemas como artrose, apnéia e depressão. "Essa entidade do obeso saudável não existe. Ele desenvolverá doença ou pode ter doenças ou alterações que não foram identificadas nos exames e que vão aparecer no futuro", afirma.

CINTURA FINA 


Mesmo os especialistas que defendem as implicações diretas do peso sobre a saúde dizem que esse sozinho não é um indicador absoluto de risco de doenças. Exames bioquímicos e outros testes, como os que medem a porcentagem de massa gordurosa e de massa magra e a circunferência abdominal, devem ser usados para um diagnóstico completo.
Um dos fatores mais importantes é a distribuição da gordura ao longo do corpo. Trata-se da velha metáfora dos tipos físicos em forma de "pêra" (cintura fina e coxas e quadris largos) ou de "maçã" (acúmulo de gordura na barriga). Este último é muito mais perigoso.
"Hoje, a obesidade central é muito mais considerada do que a obesidade em si. Essa é a gordura de risco. Uma senhora obesa com quadris e coxas grossas, mas com a cintura fina, corre muito menos risco do que um homem bem mais magro, porém com uma cintura larga", exemplifica Repetto.
Isso ocorre porque esse tipo de gordura, que se aloja em torno das vísceras, se comporta metabolicamente de forma mais nociva. Em alguns casos, ela chega a se depositar dentro das células musculares e do fígado, causando problemas hepáticos graves.
"Minha irmã vive dizendo que meu corpo é igual a um violoncelo", brinca a artista plástica Lucimara Veiga, 42, dona de uma loja de instrumentos musicais. Desde que começou a estudar violoncelo, ela emagreceu cinco quilos. "Carrego o violoncelo para lá e para cá", diz.
O tempo em que Lucimara encucava com a perda de peso, no entanto, já passou. "Sempre que usei remédios para emagrecer, engordei tudo de novo. Só tive prejuízo para a saúde."
Segundo ela, num dos processos pelos quais passou, quanto mais emagrecia, mais o nível de seu colesterol "ruim" subia. "O médico disse que era uma tendência genética", afirma ela. Hoje, o colesterol está totalmente controlado. Hipertensão e diabetes, ela nunca teve.
Quanto aos exercícios, ela diz estar parada, mas fez ginástica rítmica por oito anos. "Me sinto saudável. Subo numa escada para trocar lâmpadas e cortinas, coisas que você não imagina um gordo fazendo", brinca.
Para muitos especialistas, a falta de atividades físicas é apontada como um problema mais grave do que o excesso de peso em si. Um levantamento do Cooper Institute, instituto de pesquisa dos EUA, em um banco de dados preparado desde 1970 com mais de 80 mil pacientes, mostrou que pessoas ativas acima do peso podem ser mais saudáveis do que pessoas magras e sedentárias.
"Hoje, as pessoas são muito mais sedentárias do que há 20 anos. Acho que isso é mais nocivo do que o moderado excesso de peso. Um magro sedentário tem pior prognóstico do que um gordinho esportista", confirma Repetto.
Outro fator que tem que ser levado em conta é que há diferenças no impacto do peso sobre a saúde entre pessoas de etnias diferentes. Em povos orientais, por exemplo, os riscos à saúde aparecem a partir de um peso mais baixo: por isso, o corte no IMC deles é de 23 kg/m2.
Segundo Walmir Coutinho, não há pesquisas que mostrem a especificidade da população brasileira em relação às complicações da obesidade. "Mas sabemos que é uma população única do ponto de vista étnico. Não podemos extrapolar as pesquisas dos EUA para a nossa realidade."

DIETAS MALUCAS


Para os pesquisadores que contestam os alertas que são feitos em relação à obesidade, o principal problema é que isso gera uma busca desenfreada por dietas desbalanceadas.
Entre os especialistas, é unanimidade que esse não é o caminho. "Procurar dietas da moda não é a solução. Tem de ter um acompanhamento, caso a caso, de médicos e nutricionistas. Há um abuso até da cirurgia bariátrica."
"A sociedade gosta de padrões, mas tenho um modo de vida alternativo e não me incomodo com isso. Me assumo assim, não deixo de ter vaidades", afirma a cantora lírica Annick Joseph, 41. Por conta dos longos ensaios diários -no próximo mês, ela vai estrear na ópera "Joanna de Flandres", de Carlos Gomes-, não sobra muito tempo para a ginástica. Mesmo assim, Annick faz caminhadas leves -um dos exercícios mais indicados para quem está acima do peso e aulas de tai chi chuan.
Giuseppe Repetto lembra que, fora as questões de saúde, o biotipo considerado ideal esteticamente varia de acordo com a cultura. "De acordo com a carga genética, tem gente mais alta, mais baixa, com cabelos loiros ou morenos. Se fôssemos moldados todos iguais, seria muito sem graça."

 


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