Obesidade, Nutrição e Psiquiatria
Por que Tantas Dietas Fracassam ?
Por Dr Luiz Eduardo S J Adnet, Médico Psiquiatra e Especialista em Nutrição Médica pela Associação Brasileira de Nutrologia e Associação Médica Brasileira
Ao verificar as dez palavras e expressões mais digitadas nos mecanismos de busca da Internet encontrei a "perda de peso" (weight loss) como uma das primeiras a figurar dentre as demais. Sendo médico especialista em Nutrição Médica (Nutrologia) e atuando com grande afinco na especialidade que mais amo, a Psiquiatria, penso que posso colaborar a fim de esclarecer a quantos possa sobre o porquê do fracasso da esmagadora maioria dos programas de perda de peso que conheço. E não são poucos os que conheço. E, ainda, evidentemente, apontar o melhor caminho a ser seguido. Posso fazer estas afirmações com a autoridade de um médico especialista, bem como alguém com uma longa experiência pessoal em praticamente tudo o que diga respeito à perda de peso.
Uma Breve Menção de Minha Experiência Pessoal
Durante os anos em que vivi na Europa, tive contato com diversos profissionais que atuam na proposta de perda de peso e na busca do que alguns chamam de "a alimentação ideal". É um universo à parte, ainda mais se levarmos em conta a fenomenal quantidade de artigos, livros, textos, revistas, vídeos, estudos, pesquisas, opiniões, etc, que podemos encontrar na Internet. E passando por essa torrente virtual de informações e tendo contato pessoal com diversos terapeutas, decidi que eu mesmo seria um exemplo a ser seguido no que diz respeito à uma alimentação ideal e perda de peso.
Por cerca de um ano, já sendo um especialista na área, elaborei um plano alimentar em que nada, absolutamente, faltaria ao suprimento nutricional do organismo humano. Esse plano alimentar que desenvolvi ao longo de um ano passava, também, por um importante déficit calórico sem o qual é praticamente impossível a perda de peso corporal. E o apliquei a mim mesmo tendo experimentado um espetacular sucesso temporário. E por que temporário?
A Determinação do Peso Ideal
Sem muito me ater aos diversos métodos de avaliação de peso, em conformidade e proporção com a idade, estatura e com as atividades diárias das pessoas, penso ser imprescindível destacar a importância da Densitometria como método bastante eficaz a fim de que se possa visualizar a distribuição de tecido muscular, gorduroso e ósseo no corpo humano.
Isto feito, e realizados todos os exames laboratoriais indicados a fim de que se possa obter o perfil metabólico do indivíduo, passemos a considerar que nenhuma alteração patológica prévia exista (nenhuma doença) que possa justificar a obesidade. Neste caso o plano alimentar que desenvolvi teria, teoricamente, tudo para dar certo. E deu certo temporariamente, como já escrevi. Mas, sendo assim, o que houve de errado para que os benefícios não se perpetuassem?
A Pressão Psicológica
Ao avaliarmos, cuidadosamente, a literal explosão de casos de obesidade no ocidente, poderemos ver uma resposta completamente desproporcional a esse fenômeno por parte, inclusive, de renomados pesquisadores da chamada comunidade científica internacional. Digo desproporcional pelo explícito exagero com que a mínima presença de sobrepeso corporal é encarada e tratada por muitos terapeutas. A maior responsável, todavia, por esse estranho fenômeno é a Mídia. Conseguiu-se incutir na cabeça das pessoas uma espécie de pavor desmedido da obesidade, confundindo-a e culpando-a por quase tudo de mal que possa ocorrer no organismo humano. Não bastasse isto, novamente a Mídia, freqüentemente, mescla matérias, realizadas por indivíduos leigos e despreparados, onde as doenças cardíacas, o fumo, a moda e a obesidade parecem estar irremediavelmente inter-relacionados. Ou seja, promovem uma informação mais ou menos assim:
"Se alguém está obeso poderá sofrer de problemas cardíacos e se alguém sofre de problemas cardíacos é porque é obeso; se alguém ingere gorduras e não faz exercícios poderá ter problemas cardíacos, e se um obeso não ingere gorduras exageradamente e ainda faz exercícios regularmente, ainda assim poderá ter problemas cardíacos por ser obeso; se não é obeso, não ingere gorduras exageradamente, faz exercícios físicos regularmente, mas fuma, poderá sofrer as mesmas conseqüências dos obesos fumantes; se é magro e fuma, mas não realiza exercícios físicos, seria como se fosse obeso, pois poderá sofrer as mesmas conseqüências dos obesos fumantes e não fumantes; se para de fumar e realiza exercícios físicos, a obesidade poderá ter deixado seqüelas que o poderão levar a doenças cardíacas, tal qual os obesos que fumam, não fazem exercícios e ingerem muitas gorduras..." Que confusão!
Pois se mesmo para alguns médicos a abordagem dessa problemática toda não é tarefa fácil, imagine você em se tratando de indivíduos não médicos que vivem às voltas com toda sorte de publicações não científicas, cada uma falando o que deseja!
Seríamos por demais ingênuos se deixássemos de reconhecer o poderoso papel que exercem nessa história os interesses econômicos que muito bem exploram tudo o que lhes possa parecer acenar com a possibilidade de lucro. Indústrias de medicamentos, indústrias de alimentos, indústrias da moda, indústrias do fisiculturismo, indústrias da obesidade, indústrias disso e daquilo, uma autêntica corrida ao el dorado bilionário da obesidade. Mas quanto aos desejados e almejados resultados eficazes, onde estão?
Não Confundir Gordura com Verdura e nem Avião com Lampião!
Já seria sobremaneira benéfico, e utilíssimo a todos, se pudéssemos ver que uma correta distinção fosse feita entre obesidade, problemas cardíacos, herança familiar hereditária, estética, exercícios físicos, tabagismo e sedentarismo. Cada qual tendo um papel hoje bem compreendido em suas relações com saúde e com doença. Mas, como já dito anteriormente, um esforço extra se faz necessário, antes de uma abordagem específica sobre a obesidade e perda de peso, a fim de identificar, separadamente, cada aspecto envolvido na questão. Caso contrário, a própria visão para a identificação do real responsável pela origem de um problema de saúde pode vir a ficar obscurecida por uma abordagem distorcida da etiopatogenia (origem e causa) da obesidade. E é, precisamente aqui, a partir deste ponto, que dois caminhos são possíveis no trato com a obesidade: O sucesso ou o fracasso do tratamento e de toda e qualquer dietoterapia que se possa vir a instituir.
O Verdadeiro Responsável pela Obesidade, a Hora do Enfoque Certeiro
Muitos, seguramente, se irritarão com o que direi a seguir, outros se surpreenderão e haverá quem, simplesmente, bem entenda o que vou dizer. O fracasso da abordagem da problemática da obesidade tem se dado porque o principal responsável por ela tem sido negligenciado: O componente mental!
A brutal pressão psicológica a que somos, diariamente, submetidos em nosso dia a dia, o nada animador horizonte que se nos apresenta no cenário econômico mundial, a sanguinária violência de nossas cidades, a pobreza e a miséria correndo bem mais velozmente do que todo e qualquer programa de melhoria das condições sociais, a destruição sistemática dos valores familiares e o materialismo insaciável são motivos mais do que suficientes para colaborar com a implantação de estados de Estresse e de Depressão em milhões e milhões de pessoas no mundo todo. Segundo um estudo realizado pela Organização Mundial de Saúde, Mental Illness in General Health Care, um em cada três pacientes ambulatoriais, no mundo todo, sofre de algum Transtorno Mental.
O enfoque na abordagem do problema da obesidade deve passar, obrigatória e indispensavelmente, por uma acurada investigação psiquiátrica do paciente obeso e insatisfeito e/ou preocupado com sua condição. E se isto não é feito, não serão jamais satisfatórios e permanentes os resultados em pacientes que experimentaram sucessivos fracassos em seus tratamentos para a solução do problema da obesidade.
Os Transtornos Depressivos com suas multiformes apresentações, os Transtornos de Estresse, as Manias, as Fobias, a Compulsão, o desejo de gratificação imediata e de auto-compensação reativa, a angústia a insegurança e o medo são muito mais poderosos para causar desordens metabólicas nas pessoas do que a alimentação mal planejada ou o sedentarismo. A despeito de poder haver uma associação destes problemas, o que muito mais freqüentemente leva o paciente a engordar excessivamente é, primeiramente, um estado de desequilíbrio psicopatológico, e não os insistentemente culpados Hambúrgueres e as Pizzas.
Falando em Grego
Sem entrar em pormenores quanto às mais diferentes propostas de tratamento para o problema da obesidade, por parte de muitos terapeutas de diferentes formações, existe um sério problema quando um paciente obeso procura a ajuda de um profissional não médico. O paciente, como já dito, necessita de ser clinicamente observado e investigado a fim de que sejam excluídas doenças metabólicas como o Diabetes Melito, os Transtornos da Tireóide e outros Transtornos metabólicos e bioquímicos, além de tratamentos anteriores que possa ter realizado, com corticóides ou com outros medicamentos que levam ao ganho ponderal. Além do que, e principalmente, é necessário que se possa compreender a linguagem não oral que o paciente demonstra e evidencia durante a consulta médica. Essa linguagem passa, evidentemente, por um conhecimento fundamental em Psiquiatria a fim de que se possa fazer a correta leitura das informações a serem extraídas do paciente que procura ajuda por estar obeso. Ora, se esta avaliação não for feita por um psiquiatra, ou pelo menos, por um clínico ou endocrinologista ou cardiologista que esteja familiarizado com o "psiquiatrês", um ramo da linguagem técnica da medicina, o "medicinês", o profissional não terá entendido o "grego" em que o paciente se expressava. Esta constatação também faz parte do Mental Illness in General Health Care da OMS, onde é tido como péssimo o desempenho da maioria dos médicos em diagnosticar Transtornos Psiquiátricos, muitos deles, evidentes. Ou seja, muitos pacientes entram e saem dos ambulatórios e consultórios sem ter sido compreendidos em suas queixas. Muitos deles, desiludidos, se voltam para leigos e para as muitas terapias ineficazes e para a multidão de dietas vendidas como se fossem simples pepinos em feiras livres. E este descaso para com o aspecto psiquiátrico na abordagem do paciente obeso é como uma consulta médica a um paciente com tosse onde tudo é examinado, menos os pulmões.
Conclusão
Para que se tenha sucesso no tratamento da obesidade é indispensável a avaliação clínica, laboratorial, imageológica e psiquiátrica do paciente, onde muitos são tratados da forma correta e, finalmente, obtêm a melhora do desempenho mental, afetivo e emocional e atingem a capacidade de lidar com a alimentação de forma sobremaneira melhorada, e então o sucesso é atingido. Mais do que nunca o antigo dito aqui é aplicável: Mens sana in corpore sano!
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